No início da sua intervenção, a Dr.ª Amina Rakisheva, cardiologista em Almati, no Cazaquistão, mencionou que “as alterações eletrolíticas ocorrem, frequentemente, devido à ativação neuro-hormonal, à disfunção renal ou na sequência da administração de determinados fármacos”. “A discalemia (hipocaliemia e hipercaliemia) é uma situação comum na insuficiência cardíaca (IC), embora possa estar associada a outras comorbilidades.” A hipercaliemia é, “frequentemente, apontada como um dos motivos que justificam a suspensão dos inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona”, algo que, na perspetiva da cardiologista, contribui para “os outcomes clínicos adversos” na IC.
“Dados mostram que a doença renal crónica (DRC) e a insuficiência cardíaca são responsáveis pelo aumento dos valores de potássio em cerca de 40 a 50% dos casos. Já a diabetes mellitus tipo 2 (DMT2) e a hipertensão resistente são responsáveis por 20% dos casos de hipercaliemia. A combinação das três patologias – IC, DMT2 e DRC – está associada a um aumento mais pronunciado dos valores de potássio”, que, conforme adiantou a Dr.ª Amina Rakisheva, apresentam uma relação com “uma taxa de mortalidade mais elevada”.
As guidelines de 2021 da European Society of Cardiology (ESC) recomendam para doentes com IC (classe II-IV da NYHA) e fração de ejeção reduzida (ICFEr ≤40%) o tratamento com RAASi (incluindo antagonistas dos recetores mineralocorticoides - ARM), com inibidores do SGLT-2 ou ARNi. “A maior parte dos fármacos utilizados no tratamento da ICFEr causam ou agravam a hipercaliemia.” No parecer da cardiologista, “a hipercaliemia é um marcador de risco para outcomes desfavoráveis na IC”, dado que esta condição “conduz à descontinuação ou redução da dose de RAASi para níveis inferiores às doses otimizadas e recomendadas nas guidelines”.
Segundo a definição avançada por Rosano, em 2018, hipercaliemia consiste em valores de potássio sérico >5 mEq/L, podendo ser categorizada em três níveis: ligeira (>5 e <5,5 mEq/L); moderada (5,5-6.0 mEq/L) e severa (>6 mEq/L). Já a hipocaliemia é definida por valores de potássio < 3,5 mEq/L.
“Como estratégia de tratamento da hipocaliemia, é proposta a suspensão da terapêutica com diuréticos tiazídicos, optando-se, em alternativa, por diuréticos de ansa, usados no alívio da congestão cardíaca. Adicionalmente, recomenda-se o início do tratamento com antagonistas dos recetores mineralocorticoides ou aumento da dose destes fármacos, no caso de já constar na lista de prescrições habituais. No conjunto de opções de tratamento da hipocaliemia, recomenda-se o aumento das doses de IECA/ARA II ou ARNi, tendo em conta as doses-alvo que constam nas guidelines. Adicionalmente, aconselha-se a monitorização regular dos valores de potássio (K+) e da creatinina”, completou.
A propósito das opções de tratamento da hipercaliemia, a Dr.ª Amina Rakisheva faz referência aos captadores de potássio, indicando que esta estratégia deverá ser considerada “no tratamento da hipercaliemia aguda e crónica”. O documento “Expert consensus document on the management of hyperkalaemia in patients with cardiovascular disease treated with renin angiotensin aldosterone system inhibitors: coordinated by the Working Group on Cardiovascular Pharmacotherapy of the European Society of Cardiology”, publicado em 2018 por Rosano et al., avança com um conjunto de recomendações para gerir a hipercaliemia (valores de potássio >5 mEq/L), concomitantemente à otimização do tratamento com RAASi.
Em jeito de conclusão, especialista indicou que “a hipercaliemia é um marcador de risco de outcomes desfavoráveis” na insuficiência cardíaca, que poderá “conduzir à redução ou descontinuação da terapêutica com RAASi”. “A monitorização apertada e regular dos valores de potássio é um procedimento recomendado para o grupo de doentes com IC, associada a outras comorbilidades, como a DRC, DMT2, sob tratamento com RAASi. Os novos captadores de potássio são fármacos altamente eficazes na redução dos valores de potássio e com um perfil de segurança favorável.”


